15.3.08

O poder da leveza do sentir.


por Tatiana Vilarinho Franco.


De todos os sentimentos existentes, gosto dos mais verdadeiros, daqueles que vêm primeiro, junto com o frio no estômago. Mas, sabe-se que este frio vem do calor do sentir, do sentir perto, sentir longe ou sentir querência dos sentidos.

Às vezes, nas conversas com o universo, pergunto aos deuses como é o não sentir, como é o não desejar ou o não querer. Um dia eles disseram algo interessante. Disseram ser isso invenção humana, que no fundo não existe. Perguntava-se como, como não existe? Se se sente, é claro que existe! Nós, humanos, criamos o sentir, o desejar, o querer, o querer bem, o querer de qualquer jeito! Mas, também pensei no quanto esse sentir era colocado de lado, era abafado, era desprezado, era levado na graça ou não sentido... Não sentido por nós, os seres criadores do sentir que ignoram o sentir de verdade.

Talvez isso fosse influência dos deuses, os deuses que já não sentiam nada! E fiquei meio de mal de todos os deuses por acreditar que eles se colocavam num nível existencial à cima do nosso, já eram a nadificação do próprio ser.
===============================================
Todos os direitos à Autora.

4.3.08

“I've got life, I've got my freedom” (to Nina Simone)


por Tatiana Vilarinho Franco.


Seria ela, livre?

O livre dentro dela não pede morada, poderia ser o livre dela sem ela ou fora dela. Ele talvez não quisesse pertencer a ela, talvez ele queira dar-se, apenas por companhia, por prazer em compartilhar o livre de se ser, o livre ser ela, sem ser dela, sem ser meu ou seu!

Ela gosta de poder olhar pela fresta da janela e sentir que ninguém percebe seus olhares e muito menos seu pensar, ou quando ela fecha os olhos para ouvir melhor uma canção e parece ser só a canção no universo. Estes são os momentos em que os dois, ela e o livre, estão mais próximos.

Ele gosta de existir nesta canção ou neste pensar, e de ir além, de subir num balão todo colorido, como se fosse feito de retalhos, e subir, subir o mais alto. Acho que para se distanciar do que, na realidade, não é real. Talvez para sentir a falta da gravidade, e mesmo assim o movimento dos astros.

Para sentir a densidade do existir à beira de um buraco negro, que deve ser a mesma sensação de quando as idéias estão passeando na linha entre o real e o surreal. O livre pode ser inclusive livre dele próprio, livre para escutar o que os próprios ouvidos permitirem ou para falar somente o que a própria boca decidir ou mesmo, para ver somente o colorido, seja do balão ou dos astros, seja das flores ou das estrelas, seja de um sorriso, do sorriso dela e, assim, permitir-se a liberdade!

Sim, ela o é!

==============================================

Todos os direitos à Autora.

2.3.08

O ser e as nádegas


PEÇA INÉDITA DE CAMUS, AUTOR DE "O ESTRANGEIRO", PRENUNCIA RUPTURA COM SARTRE AO SATIRIZAR "O SER E O NADA" E A LEVIANDADE DOS INTELECTUAIS


--------------------------------------------------------------------------------
Camus faz um pastiche do existencialismo cujo ápice é a passagem na qual o sr. Vigne explica à mulher a razão pela qual, apesar de nada fazer sentido, ele deve se refestelar à mesa
--------------------------------------------------------------------------------

Numa entrevista de 1959, ao ser questionado sobre qual seria o aspecto de sua obra mais ignorado por leitores e críticos, Albert Camus [1913-1960] respondeu com uma palavra: o humor. Se tivesse publicado em vida a peça teatral "O Improviso dos Filósofos" [L'Impromptu des Philosophes] -que permaneceu inédita por 60 anos-, esse traço da obra camusiana certamente não teria passado despercebido entre seus contemporâneos.

"O Improviso dos Filósofos" é uma comédia ou "divertimento" à maneira de Molière -a começar pelo título, calcado em "O Improviso de Versalhes" (1663), primeira peça representada pelo dramaturgo diante de Luís 14.

O tema de Camus, porém, é um outro tipo de realeza: a república dos intelectuais e, em especial, a corte existencialista reunida nos cafés do Rive-Gauche em torno de Jean-Paul Sartre [1905-1980].

A data provável da redação de "O Improviso dos Filósofos" -um manuscrito com 40 páginas- é 1947.

A informação é importante por ser esse o ano em que Camus publicou o romance "A Peste" e começou a esboçar "O Homem Revoltado", livro de 1951 que provocaria sua ruidosa ruptura com Sartre.

Ou seja, "O Improviso dos Filósofos" antecipa em alguns anos as animosidades e diferenças entre ambos.

A peça já havia sido mencionada pelo biógrafo Olivier Todd, autor de "Albert Camus -Uma Vida" (ed. Record), e pelo pesquisador Ronald Aronson, autor de "Camus e Sartre - O Polêmico Fim de uma Amizade no Pós-Guerra" (ed. Nova Fronteira), livro de 2004 recém-publicado no Brasil que mostra como o rompimento dessa relação pessoal explicitou fraturas ainda hoje presentes na vida intelectual francesa.

Ocorre que mais recentemente, com o lançamento dos dois primeiros volumes da nova edição da obra completa de Camus pela Bibliothèque de la Pléiade (estão previstos quatro tomos), "O Improviso dos Filósofos" se tornou finalmente público -o que permite entender os antecedentes do atrito com Sartre, mas não resolve as ambigüidades desse texto que Camus assinou sob o pseudônimo Antoine Bailly.

Filosofia em moda

Na peça, o sr. Vigne ("Videira", um farmacêutico de província e prefeito da cidade) recebe a visita do sr. Néant -um intelectual parisiense cujo nome faz referência direta a "O Ser e o Nada" (no original, "L'Être et le Néant"), ensaio de Sartre que lança as bases do existencialismo ao elaborar conceitos como liberdade, contingência, acaso e angústia de um ponto de vista muito particular, sob o impacto da fenomenologia de Husserl (1859-1938) e do pensamento de Heidegger (1889-1976).

A partir dessa cena básica, em que o sr. Néant se anuncia como portador da doutrina filosófica que é a última moda em Paris, Camus envolve outras personagens (sra. Vigne, a filha Sophie e o pretendente desta, Mélusin) num pastiche do existencialismo cujo ápice é a passagem na qual Vigne explica à mulher a razão por que, apesar de nada fazer sentido, ele deve se refestelar à mesa.

Camus faz ali uma série de variações sobre a idéia de que nossa liberdade se constitui quando resistimos ao olhar objetivante do outro, que deseja transformar nosso "ser-aí" (o "dasein" heideggeriano) num "em-si" (um ente do mundo inanimado) -e o efeito cômico está na sofreguidão conceitual que visa a justificar o acesso do sr. Vigne ao pernil preparado para a ceia.
Há várias alusões diretas a Sartre, com deformações que mostram o efeito do existencialismo sobre uma platéia ansiosa por um guru que ditasse comportamentos transgressivos. Assim, após ler o livro que Néant lhe traz, o sr. Vigne palestra com Mélusin e, baseado na idéia sartriana de que "não são as intenções que contam, mas as ações", exige que o candidato a genro se encontre com sua filha "entre quatro paredes" (referência à peça "Huis Clos", de Sartre).
Afinal, só a existência de um bastardo comprovaria factualmente a pureza de seu "engajamento" matrimonial...

Mais ridículo

Num outro momento, Vigne se decepciona ao saber que Mélusin não é criminoso, não oculta desejos incestuosos nem se entrega às práticas da pederastia -uma alusão ao fascínio que o dramaturgo Jean Genet (1910-86, homossexual sadomasoquista que viveu entre a delinqüência e a prisão) exercia sobre Sartre.
Ao final da peça, surge um diretor de hospício desfazendo o imbróglio e revelando que Néant não passa de um maluco que sai por aí divulgando livros que jamais leu -uma ironia aos modismos (e críticos literários) parisienses que, de alguma forma, acaba "salvando" Sartre, pois torna mais ridículos seguidores e apóstolos do que o messias existencialista.
Segundo Raymond Gay-Crosier (um dos organizadores da edição da Pléiade), um dos motivos pelos quais Camus não publicou "O Improviso dos Filósofos" é sua excessiva proximidade em relação a Molière (que tampouco incluiu "O Improviso de Versalhes" na reunião de suas obras). De fato, o glutão Néant parece saído das páginas do "Tartufo", e Vigne é um avatar do crédulo sr. Jourdain, de "O Burguês Fidalgo".

Mas não deixa de ser surpreendente que, após o sarcástico texto que Sartre publicou na revista "Les Temps Modernes" (em resposta a carta de Camus contestando resenha de "O Homem Revoltado" que o acusava de omissão histórica em nome da moral), ele não tenha exumado esse manuscrito.

Afinal, na última cena de "O Improviso dos Filósofos", na fala do diretor do hospício, está uma síntese da visão de Camus sobre a frívola irresponsabilidade dos intelectuais franceses (naquele momento, cegos para as atrocidades cometidas em nome das utopias comunistas):
"Gostamos tanto dos belos pensamentos que não conseguimos parar de falar o dia todo, o que não deixa muito tempo para ler. Enlouquecemos a tal ponto com o patriotismo que acabamos sendo patriotas por dois ou três países. Dilaceramo-nos em nome da paz e prometemos a prisão em nome da liberdade."
Do site Uol.