
Rubem Alves, revista Nova Escola, 6/9/03


Primeiro ato: Diálogo entre um coração atônito e uma mente em desvario sobre a paixão de um poeta/cavaleiro pela doce imperatriz.
Essência da alma que busco/romper por minhas canções/por minhas palavras vãs/Me tiram o aspecto vida/quanto mais me aprofundo no doce olhar dessa superfície alva e serena/posso, porque não?/não, mais quero!/linhas soltas no vento não desgarram do sentimento acordoado, amassado/ - Escândalo!/segue o tempo/Segue o Tempo/me dizem para acordar/- tire isso da cabeça!/Antes que o pior aconteça/o que é pior em um mundo sem rédeas, onde a já não se sabe do fato do dizer sim ou não/queria eu desvelar a palavra, o sentimento, o grito que permeia as sendas desta tarefa árdua que é ser meu coração. Antes que anoiteça/Mas só e nunca mais! "serena"! "Serena"! /o que te impede de me ver/o que me impede de viver/é o bem que o mal processa/é o mal que aos tristes benze/sofrer é bom ao poeta/a alma segue liberta/dos caprichos e dos ais!/mas se a fome de viver ora liberta/massacra a vida inquieta/faz mal aos corações bons/ - Tragédia.
Fim do primeiro ato.
Segundo ato: sobre os devaneios dos sonhos que prometem ao coração a cura das doenças de Orfeu.
O que valho pelo que me pesa/quanto meço pro que já se rompeu/qual a medida da loucura pra quem teme os perigos desta vida - que são tantos(ode à Orfeu)/ desvelar/revelar/o ato único de um tempo instante/quanta consequência santa/neste momento eterno/o quão poderoso pode ser um olhar?/o quão confuso pode ser um não?/quantos séculos formam uma encarnação? qual o mérito do cavaleiro que rompe a armadura pra arrancar o coração?/disseram-lhe que mais a maldição de ser assim, mas o remédio do porvir é a esperança/a música enternece o coração aflito e árido/traz a paz real à falsa calma/esqueça! - me disseram, antes que enlouqueça!/já não creio nas quimeras de sonhos loucos que me entrelaçam sorrateiramente enquanto durmo /cante, é a única saída/viva! a única solução pra vida é viver.
Fim do segundo ato
terceiro e último ato: o que é real e o que é de fato a realidade? devaneios sobre a fantasia de ser realista ou “que falta faz a rima final nos versos cantados de um cavaleiro errante.”
O mérito é todo dele/ o outro cavaleiro das horas douradas/veio quando o dia ainda alvorava e sacou da mais bela roseira, a mais perfumosa das rosas/e hoje ao lhe ver tão garboso/debruçado no vaso de flores/bizantino quase que não se demora/pra que não vejam as lágrimas que chora/por não ser o jardineiro que molha/as pétalas da donzela . . .
Fim do último ato
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